Da
farda única ao moderno pronto-a-vestir
Conforme estudamos
no semestre passado, a Administração Pública até ao início do século XX era uma
Administração autoritária, baseada numa actuação agressiva, de Estado Polícia,
em que o acto administrativo era a forma de actuação por excelência, daí que a
concepção administrativa fosse acto-cêntrica. Nesse sentido, Otto Mayer comparava
o acto administrativo a uma sentença judicial, pelo que o acto definiria o
Direito e impunha-o coactivamente. Já Maurice Hauriou compara o acto
administrativo a um negócio jurídico, aceitando a ideia de Administração
prestadora de serviços, apesar dos seus "poderes exorbitantes" de
definição e de imposição coactiva do Direito.
Com a Grande
Depressão de 1929 e com o pós-guerra, os Estados adoptam políticas keynesianas,
que levam a que a Administração passe a ter uma actividade cada vez maior e
mais importante, pelo que passa a ser uma Administração prestadora, ideia que
se consolida com a afirmação do Estado de Direito. Apesar desta mudança de
paradigma ter começado no início do século XX, em Portugal só em 1989 é que
desaparece a noção de acto definitivo e executório e apenas em 2004 desaparece
como critério quanto à impugnabilidade, aquando da revogação o artigo 25º da
LEPTA, e com a entrada em vigor do Código do Processo Administrativo.
É assim que o acto
deixa de ser "a forma" de actuação, para passar a ser "umas das
formas” de actuação da Administração, daí que o Professor Vasco Pereira da
Silva use a metáfora “Da farda única para o moderno pronto-a-vestir”.
Deste modo, as
relações jurídicas deixam de ser bilaterais, passando a ser multilaterais,
envolvendo outras formas de actuação paralelas ao acto administrativo. Basicamente,
para o Professor Vasco Pereira da Silva, “que tem a psicanálise em dia” por ter
lido autores estrangeiros como Funk, a actuação moderna da Administração passa
a englobar e conjugar actos agressivos, actos prestadores e actos
infra-estruturais (de eficácia perante terceiros).
Historicamente, existe uma discussão acerca da
noção e alcance do acto administrativo, nomeadamente entre tradições amplas e
restritas do acto administrativo, que conduzem a uma discussão doutrinal entre
o modelo francês (amplo) e o modelo alemão (restrito), sem prejuízo de um e
outro serem seguidos por ordenamentos jurídicos com alguma ligação jurídica. A
concepção ampla de acto administrativo define-o como produtor de efeitos
jurídicos, subdistinguindo depois entre actos recorríveis e não recorríveis,
como sucede em França, Portugal, Espanha e Itália. Esta doutrina francesa
considera que, como aponta Laferrière, o legislador quis prevenir, através do
emprego de formas tão amplas, qualquer distinção entre os diferentes actos das
autoridades administrativas e subtraí-los a todos, indistintamente, à
competência judiciária. Por outro lado, uma concepção restrita do acto
administrativo, concepção alemã, define-o como acto regulador (produtor de
efeitos jurídicos novos relativamente ao particular), sendo também adoptada
pelos austríacos. A adopção alemã de uma perspectiva restrita é historicamente
marcada pela acentuada tendência acto-cêntrica, subvalorizando o procedimento e
considerando apenas o resultado final da actuação administrativa. Assim, o
conceito alemão de acto administrativo, enquanto noção restrita por excelência,
caracteriza-se pela regulação da posição do particular e pelo seu carácter
externo e lesivo, excluindo a doutrina do acto administrativo os actos
materiais, os actos preparatórios, os actos meramente confirmativos e os actos
de gestão privada/ contratos administrativos. Esta acepção alemã de acto
administrativo é delimitada pela recorribilidade jurisdicional, no entendimento
de Forsthoff, ou seja, é delimitada em função dos direitos que se fazem valer
no contencioso administrativo.
Em Portugal, o artigo
120º do CPA apresenta-nos uma noção legal de acto administrativo, cujo conceito
é claramente amplo, definido como produtor de efeitos jurídicos. O artigo 120º CPA
refere também a unilateralidade, a concretude do acto e a emanação ao abrigo de
normas de Direito Público como requisitos do acto administrativo, apesar do
Professor Vasco Pereira da Silva considerar mais correcta outra formulação,
propondo: "no exercício da função administrativa".
A Escola de Coimbra,
encabeçada pelo Professor Rogério Soares, fortemente influenciado pelo Direito
Alemão, e seguida pelos Professores Sérvulo Correia, Vieira de Andrade e
Freitas do Amaral, defende uma interpretação restritiva do artigo 120º do CPA,
optando por um acto regulador. Defende-se, portanto, uma noção a meio-caminho
entre a concepção liberal do Professor Marcelo Caetano, que durou até 1989, e a
concepção ampla que se retira de uma interpretação literal do preceito. O
Professor Freitas do Amaral avança, inclusive, com dois argumentos literais,
nomeadamente pelo facto de o artigo 120º CPA se referir a "decisões",
comparando, nesse sentido, o acto à sentença, e por se referir a "normas
de Direito Público". Ora, face a estes argumentos, o Professor Vasco
Pereira da Silva refuta facilmente esta tese, pois relativamente à
"decisão", a noção é de facto redutora, mas não corresponde de todo à
realidade, e quanto às "normas de Direito Público", também os
privados exercem actos administrativos, no exercício de funções públicas, sendo
que esses particulares praticam também actos administrativos, nomeadamente no
caso das empresas concessionárias. O Professor Vasco Pereira da Silva
considera, e com razão no meu ponto de vista, que a noção de acto
administrativo deveria realçar a obrigatoriedade do procedimento, a sua
inserção numa relação jurídica administrativa, e o facto de a unilateralidade e
concretude servir para distinguir o acto administrativo do regulamento.
Como
referi no terceiro parágrafo, o acto administrativo deixa de ser “a forma” para
passar a ser “uma das formas” de actuação administrativa, passando então a existir
quatro tipos principais de actuação administrativa, nomeadamente o regulamento,
que corresponde a um acto unilateral, geral e abstracto (Ex: Regulamento
emanado pela Administração Pública acerca das normas de funcionamento de
determinado departamento); o acto administrativo, que consiste num acto
unilateral, individual e concreto (Ex: Ordem de demolição de um prédio); o
contrato, que é um acto bilateral, individual e concreto (Ex: Concessão
administrativa); as operações materiais e técnicas, que constituem actos
unilaterais, individuais e concretos, que não produzem efeitos jurídicos,
destinando-se normalmente a desenvolver regulamentos ou actos administrativos
(Ex: Desobstrução de estrada para limpeza da mesma). Não obstante esta classificação,
o Professor Vasco Pereira da Silva defende que actuações a meio-caminho entre o
acto e o regulamento (individuais e abstractas ou gerais e concretas) devem ser
tidas por regulamentos, pelo facto de não serem individuais e concretas (Ex:
Plano administrativo, que é geral e concreto).
Mariana Baptista de Freitas
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